Um copo de suco de beterraba aqui, umas colheradas de iogurte ali... Investir em medidas simples e — por que não? — gostosas, pode ser o suficiente para barrar a hipertensão e controlar seus estragos.
por Thaís Manarini | design Fernanda Didini | fotos Alex Silva
A cada dois minutos, uma
pessoa morre em decorrência de males cardiovasculares no Brasil. Por trás do
número indiscutivelmente alarmante, muitas vezes se esconde a hipertensão, um
problema pra lá de traiçoeiro, porque é capaz de permanecer anos sem dar
sinais. Ainda bem que, detectada precocemente, a situação não exige medidas
drásticas. Muito pelo contrário: elas podem até ser saborosas, como pesquisas
recentes têm comprovado ao relacionar certos alimentos a um menor aperto nos
vasos sanguíneos.
Em alguns casos, o efeito
pode parecer pouco significativo. Mas não se engane. "Pequenas reduções na
pressão já têm grande impacto no organismo", avisa Carlos Alberto Machado,
diretor de promoção de saúde cardiovascular da Sociedade Brasileira de
Cardiologia, a SBC. "Quando a pressão sistólica cai só 2 milímetros de
mercúrio (2 mmHg), há uma diminuição de 10% no risco de morte por derrame e de
7% por infarto", exemplifica. Daí a importância de prestar atenção ao que
vai no prato. Isso vale até para quem não é hipertenso, porque zelar pelas
artérias torna muito mais longo o caminho que leva à doença. Nesta e nas outras
páginas, destacamos oito companheiros nessa empreitada. Eles vão garantir que
ela seja bem menos árdua.
Veja as dicas:
Suco de beterraba
Em estudos anteriores,
cientistas da Universidade Queen Mary, no Reino Unido, mostraram que essa
receita conseguiu derrubar a pressão em indivíduos que não penavam com o
problema. Agora, notaram que o benefício é até mais expressivo em quem já tem
hipertensão. Dos 15 pacientes que participaram da nova análise, aqueles que
tomaram 250 mililitros de suco de beterraba viram a pressão sistólica despencar
cerca de 10 mmHg — isso significa que, se uma pessoa tem pressão de 140 por 90
mmHg, ao tomar o refresco a medida cairia para 130 por 90 mmHg. "O vegetal
é fonte de nitrato, substância precursora de óxido nítrico, um potente
vasodilatador natural", explica a nutricionista Regina Pereira, da
Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp). Além disso, carrega
potássio e flavonoides, dupla que favorece a derrocada da pressão.
Dica: Na investigação, o refresco foi feito com duas beterrabas. Se preferir, você pode usar o vegetal em sanduíches e saladas. "É melhor optar pelo alimento cru porque o cozimento causa perdas nutricionais", aconselha Regina. Só não vale abusar. "Há evidências de que o excesso de nitrato é tóxico", salienta a nutricionista.
Dica: Na investigação, o refresco foi feito com duas beterrabas. Se preferir, você pode usar o vegetal em sanduíches e saladas. "É melhor optar pelo alimento cru porque o cozimento causa perdas nutricionais", aconselha Regina. Só não vale abusar. "Há evidências de que o excesso de nitrato é tóxico", salienta a nutricionista.
Clara de ovo
Ao contrário da gema, essa
parte do alimento não tem colesterol. Só que essa não é sua única vantagem,
como apontam pesquisadores da Universidade Jilin, na China. Eles descobriram
que a clara tem boas doses de um peptídeo capaz de inibir uma enzima cuja
tarefa é formar a angiotensina — substância que contribui para o estreitamento
dos vasos e a elevação da pressão. A ação seria similar à do captopril,
medicamento usado com a mesma finalidade. Infelizmente, a análise não se
dedicou a avaliar a melhor forma de consumo — ovos ou cápsulas com o peptídeo?
De qualquer maneira, a revelação empolga. "Quanto mais natural for o
tratamento, melhor", opina Heno Lopes, cardiologista do Instituto do
Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo (Incor). Dá para fazer ovo mexido
só com a clara ou usá-la em uma omelete com legumes. Mas atenção: apesar de não
haver restrição de consumo, ela tem muita proteína. O exagero diário pode,
portanto, sobrecarregar os rins.
Dica: Dá
para fazer ovo mexido só com a clara ou usá-la em uma omelete com legumes. Mas
atenção: apesar de não haver restrição de consumo, ela tem muita
proteína. O exagero diário pode, portanto, sobrecarregar os rins.
Chocolate
Uma revisão de 20 trabalhos
científicos, com mais de 800 participantes, concluiu que o doce contendo de 50
a 85% de cacau faz a pressão cair cerca de 3 mmHg. Basta se deliciar com um
quadrado ou, no máximo, uma barrinha. "Os flavonoides do cacau propiciam a
formação de óxido nítrico, que, por sua vez, relaxa os vasos sanguíneos",
descreve Karin Reid, diretora de pesquisa do Instituto Nacional de Medicina
Integrativa, em Melbourne, na Austrália. Segundo ela, os resultados reforçam as
evidências de que uma dieta rica nessas substâncias — que também estão no
chá-verde, no vinho e nas frutas vermelhas — protege o coração.
Dica: Os
trunfos do chocolate são decorrentes da presença de cacau, visto em abundância
na versão amarga. Por isso, maneire nos chocolates branco e ao leite, pobres no
ingrediente que derruba a pressão.
Uva-Passa
Vem do Centro de Pesquisa em
Aterosclerose e Metabolismo de Louisville, nos Estados Unidos, um experimento
que associou a ingestão de passas a uma redução na pressão de pessoas
pré-hipertensas. "Isso talvez seja mérito dos polifenóis, antioxidantes
detectados na casca do alimento", supõe Heno Lopes. Em análise na também
americana Universidade de Connecticut, a uva natural, sem ser desidratada, se
mostrou igualmente benéfica. "Demos aos voluntários dois copos da fruta
fresca por dia", conta Jacqueline Barona, cientista de alimentos da
instituição.
Dica: A
fruta in natura tem mais água do que as passas. Estas, portanto, são menores, o
que pode culminar no consumo exagerado. O perigo é que em 100 gramas há 270
calorias. Moral da história: pare na segunda colher de sopa.
Nozes
A relação entre elas e o
controle da hipertensão ainda gera bafafá. No entanto, em um recente ensaio
clínico com mais de 7 mil pessoas, o uso das nozes e de outras oleaginosas,
como amêndoas e avelãs, ajudou, sim, a evitar os picos de pressão.
"Provavelmente porque são cheias de polifenóis e de ácido alfalinolênico,
uma versão do ômega-3", especula o estudioso Emilio Ros, da Universidade
de Barcelona, na Espanha. Cabe frisar que toda essa turma seguia a dieta
mediterrânea, abastecida de outros itens saudáveis.
Leguminosas
Experts da Universidade de
Toronto, no Canadá, recrutaram portadores de diabete do tipo 2 para comer uma
xícara diária de leguminosas, a exemplo do feijão — ou seja, nenhum sacrifício.
Surpreendentemente, a intervenção não só melhorou os níveis de açúcar correndo
pelo sangue como também aliviou as artérias tensionadas. "O feijão possui
baixo índice glicêmico, prevenindo os picos de glicose. Com isso, também fica
mais fácil controlar a pressão", raciocina Camila Torreglosa,
nutricionista do Hospital do Coração, na capital paulista.
Dica: Ao
preparar o feijão, abra mão de temperos industrializados, lotados de sódio.
Experimente refogá-lo com alho e cebola e adicionar ervas.
Chá-verde
De fato, a bebida,
abastecida de polifenóis, é aliada contra a hipertensão. A prova está na tese
de doutorado de Lívia Nogueira, apresentada no programa de pós-graduação de
Fisiopatologia Clínica e Experimental da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro. Depois de dar três cápsulas do extrato — o equivalente a três xícaras
de chá — a mulheres quase hipertensas todos os dias, por quatro semanas, ela
observou uma baixa significativa na pressão arterial. "O ponto positivo é
que o chá tem poucas calorias", analisa Antônio Felipe Sanjuliani,
coordenador da disciplina e orientador do trabalho. Só que goles em demasia
podem ser tóxicos para o fígado. Logo, nada de trocar xícaras por jarras.
Dica:
Quem é muito sensível à cafeína, outra substância do chá-verde, deve recusá-lo
à noite para não ter o sono prejudicado. Tem mais: evite bebê-lo muito perto
das grandes refeições, pois ele atrapalha a absorção de ferro. Por fim, para
garantir o total aproveitamento dos compostos bioativos, consuma após o
preparo, quente ou gelado.
Iogurte
Durante o último encontro da
Associação Americana do Coração, um curioso elo foi apontado por pesquisadores
da Universidade Tufts, nos Estados Unidos. Após avaliar os hábitos alimentares
de 2 mil pessoas por 15 anos, eles perceberam que consumir potinhos de 200
gramas de iogurte com baixo índice de gordura a cada três dias poderia reduzir
em 31% o risco de desenvolver hipertensão. Para a nutricionista Regina Pereira,
da Socesp, a explicação está no cálcio. "Na sua ausência, há aumento na
concentração de vitamina D. Isso sinaliza para o corpo que é preciso preservar
o pouco cálcio que resta", informa. O problema é que, aí, ele adere à
parede dos vasos, gerando um aumento da pressão lá dentro. Para escapar de
desastrosas consequências, é só caprichar na ingestão de lácteos magros.
Dica:
"Em vez de simplesmente acrescentar o iogurte à dieta, é importante que
ele substitua algum item calórico ou pouco saudável", ensina Huifen Wang,
pesquisadora da Universidade Tufts.







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